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Buscando e retendo talentos sem o hype da tecnologia

Como engajar novos e atuais colaboradores da área de tecnologia se o negócio não requer tecnologias de ponta (Hype)? Esse é um dos grandes desafios de muitas empresas e vamos falar mais sobre ele.


Aquecimento do mercado de trabalho de TI

Com as mudanças geradas nos modelos de negócio do mundo todo, em quase todos os segmentos, muitas empresas voltaram seus olhos para a TI. Sejam lojas que precisaram  voltar a sua estratégia para o e-commerce (uma vez que os negócios físicos ficaram impedidos de abrir) ou mesmo indústrias que, em tempos de contenção, precisaram reduzir seus custos operacionais.
Este tipo de movimento do mercado em busca de tecnologias também gera outro efeito colateral: o aquecimento de oportunidades e posições de profissionais de diversas áreas da Tecnologia da Informação (TI), às vezes os mesmos profissionais que foram dispensados na primeira semana de pandemia, onde não se sabia muito bem qual estratégia traçar. 
Brotam de um lado recrutadores com vagas cheias de desafios e, do outro lado, crescem DevOps Engineers, Site Reliability Engineering (SRE) e muitas outras nomenclaturas que pouco se sabe na prática quando  “a mão vai para a graxa”. 
Mas qual a origem destas nomenclaturas? Por que todos os dias temos um novo nome para atuar em uma nova tecnologia? Sim, além da necessidade de agilidade do mercado temos também a ansiedade pelo uso do que está em evidência. 

Ligação entre mercado e plataformas self-service está na formação de novos recursos

Este anseio pelo novo, em nosso entendimento, é também obra de um processo sistêmico das empresas de consultoria e startups onde, seja por programa de formação ou requisito no programa de recrutamento, essas tecnologias são apresentadas como o melhor, e qualquer coisa mais antiga “é ruim”, “é legado”, ou seja, não presta. 
Veja a referência do Gartner sobre as 10 (dez) principais tendências (aqui), onde há exatamente um direcionamento para plataformas self-service.

Plataformas self-service

Do ponto de vista prático é a composição de diversas stacks, sejam open source ou enterprise, nos modelos IaaS (Infrastructure as a Service) ou SaaS (Software as a Service). Tais stacks são coordenadas para proporcionar um ciclo completo, desde a esteira de publicação até o delivery em um ambiente estável, confiável e escalável. 
Em organizações que não estão abertas a mudança cultural, para que seus produtos sejam desenvolvidos e ocorra uma tentativa de redução de rotatividade (seja de consultoria de terceiros ou mão de obra própria), requisitam a construção de ambientes mais complexos, com tecnologias mais atuais, sem que de fato gere vantagem para o negócio. 
Criam-se plataformas e times focados em tecnologias sem uma necessidade, estes times ao longo do tempo se desmotivam pela frustração de falta de propósito.

Plataforma Self-Service : Quais as vantagens e desvantagens de negócio

Mas qual necessidade? A necessidade de atender o “time to market” de inovações para fazer frente a ambientes cada vez mais concorridos de mercado, gerando agilidade, qualidade nas aplicações, disponibilidade e confiabilidade do ambiente ao ciclo de rollout. 
Mas o que envolve este ciclo? É o ciclo de construção, testes, publicação e sustentação de serviços, pois estamos inseridos em ambientes que dependem da TI para que sejam competitivos em um momento tão dinâmico como este. Veja, estes são ambientes em que precisam se reinventar comercialmente ou aprimorar a velocidade e qualidade dos serviços e produtos oferecidos. 
Se a organização está inserida em um mercado não-volátil,  seguindo estável mesmo em períodos turbulentos, antes de montar uma plataforma e decidir usar determinadas tecnologias ou metodologias, é primordial avaliar se todo este investimento faz sentido.
A ausência de demanda ou necessidade geram reflexos como o método “go horse”, retornando velhos hábitos, como forma de exceção. Neste caso começam as intervenções manuais, promoção de novas releases que não seguem completamente o fluxo de publicação e, no pior dos casos, estas exceções se tornam o padrão, pois ao longo do tempo para a camada estratégica da empresa perde-se o sentido de custo de operação, solicitando “skips” no processo, geralmente burlando ou negligenciando os testes automatizados ou provisionamentos de infraestrutura controlados. 
O time e gestão precisam ver valor no fluxo (valor para o negócio) e, caso pensem em abrir mão de algum ponto, precisam estar cientes de qual valor também estarão abrindo mão, este processo é chamado de Gestão de Risco. 
Veja que até aqui não citamos um tipo específico de solução, pois isto varia de acordo com a realidade e complexidade do ambiente alvo. Lembramos da máxima de que nem sempre precisamos de um Kubernetes para termos um ambiente saudável, mas algo a nós não é discutível, processos como garantia de estado, fluxo de versionamento, testes automatizados, rastreabilidade e observabilidade.

Mas como gerar engajamento retendo e obtendo novos talentos para seu time se não pode oferecer estes desafios e tecnologias? 

Primeiro precisamos identificar em qual cenário a organização alvo faz parte: ou o mercado onde está inserida não é tão dinâmico, ou a organização está tão distante de inovações tecnológicas e atuais de engenharia de software que opera com sistemas ainda criados antes de 2010 (os famosos “legados”), com processo de publicação manual, etc. Para cada um destes cenários, precisamos descobrir a resposta da pergunta: ‘o que gera engajamento para novos talentos, ou retêm os existentes se a organização não possui tais desafios?’, mas as mudanças serão obtidas em momentos diferentes, pois serão mudanças culturais muito grandes e isto leva tempo, mais tempo do que sua carreira possa esperar. 

Um ponto importante em nosso ponto de vista é que em ambos os cenários não podemos e nem devemos vislumbrar um cenário saindo de um datacenter on-premise e indo dentro de 1 ano para uma cloud híbrida com plataforma self-service, onde todos processos de testes e rollout de ambientes sejam automatizados. Isto demanda esforço, tempo, disciplina e, principalmente, a priorização do time estratégico da empresa. Sem isso, talentos procurarão outros desafios, e cada vez mais o time A virará o time C em vários aspectos, mantendo velhos hábitos. 
Observe que estamos olhando do ponto de vista ainda de carreira e do colaborador, todas as práticas necessárias não partem da camada operacional e tática, por mais dinheiro e recursos que sua organização possua, nem sempre é de dinheiro que estamos falando, mas de outros valores e requisitos.  Vejam alguns fatores comuns que mapeamos:
  • Fatores que geram engajamento:
    • Perspectiva de evolução (profissional, pessoal e financeira)
    • Desafios técnicos alinhados com a carreira
    • Autonomia para fazer mudanças
    • Flexibilidade de horário de trabalho
    • Possibilidade de trabalho remoto
    • Conciliação com a vida pessoal, qualidade de vida
    • Trabalhar com pessoas qualificadas
    • Liderança servidora que escuta atentamente
    • Coach Sessions e 101s
    • Guilds, Hackathons, Dojos, sessions de LTs 
    • Cultura de inovação e de Deep Dive
    • PTO (Paid Time Off)
    • Hosting de meetups
    • Suporte a participação de projetos Open source
    • Pub Crawls com o time 
    • Acreditar na iniciativa que se está trabalhando, e não só o faz por motivos meramente financeiros ou de tendência
  • Fatores que podem desmotivar:
    • Falsas promessas de crescimento
    • Inflexibilidade
    • Problemas de ordem Política / Segurança psicológica
    • Não propiciar mudanças
    • Falta de propósito
    • Escritórios, cubículos ou ambientes no-open-space
    • Muitas reuniões, lidar com questões administrativas e comerciais
    • Forçar um modelo de contratação (CLT, PJ, etc.)
Aqui não elencamos quais fatores são mais ou menos importantes, o fato de serem citados quando questionados ‘Quais os fatores que lhe geram engajamento em projetos em que atuou/atua? Quais fatores já os fizeram sair de algum projeto?’ nos mostram que, se estão presentes, em algum momento foram relevantes em uma tomada de decisão do colaborador, seja para ingressar em um projeto ou para deixá-lo.
Ainda não respondemos a pergunta inicial: “O que gera engajamento para novos talentos, ou retêm os existentes se a organização não possui tais desafios?”
O primordial é não apresentar falsas promessas ou falsos desafios, isso frustra mais do que a sinceridade. Só diga que está com o desafio de transformação digital e a implantação de novas tecnologias se de fato tem uma movimentação clara da direção para isto. Caso não tenha, seja verdadeiro, não dê falsas esperanças, pois este novo recurso ou quem está pensando em sair não permanecerá muito tempo. 
Se a organização não tem o apoio estratégico, seja honesto e mude o discurso. Diga que o desafio, seja com o conhecimento do time ou de quem se quer contratar, é experimentar novas práticas de engenharia de software (e esteja aberto a isto), utilizá-la em projetos pilotos para mostrar aos diretores resultados com essa nova abordagem. Que isto demandará tempo, que muitas vezes não terão apoio e o risco deve ser compartilhado, mas nunca omitido. Estará dando a oportunidade de ambos os lados entrarem em acordo sabendo o jogo que está sendo jogado. 
Tudo isto pode mostrar alternativas e modificações de planos, sem frustrações, de maneira flexível, sem sonhos, com decisões mais reais, baseadas em vantagens para o negócio, e não baseadas em tendências. O time pode decidir em conjunto que, a curto prazo, talvez não seja um Kubernetes que se precisa, e nem o uso de microsserviços se o monolito ou a estrutura modular atende bem.

Concluímos que as organizações que estão inseridas nestes cenários, ou ainda empresas de outsourcing e consultoria, que cometem equívocos ao usar alguma destas práticas dificilmente obterão êxito no preenchimento de todas as suas posições em aberto. Entretanto, aumentará a imagem de transparência e, por consequência, a retenção de talentos. 
Também é necessário lembrar que qualquer tecnologia ou metodologia nova deve ser considerada se houver uma clara vantagem de retorno para o negócio. Não fazer o uso sem sentido ou por tendência.  Procurar fazer estudos sobre as vantagens e desvantagens de cada implantação, uma vez que escolhas ruins sempre levarão ao prejuízo.
Busque consultorias, parceiros que estão dispostos a crescer com o seu negócio e apresentar soluções alinhadas com suas estratégias: que nem sempre lhe digam o que estás esperando ouvir, não lhe digam sim somente para alocar mais recursos e ter mais lucros, mas buscar o lucro em conjunto com o resultado da sua organização.
As pessoas, em sua maioria, se motivam e se engajam mais pelo resultado (de negócio) do seu trabalho, não apenas por usar uma tecnologia que, ao final, gerará caos tecnológico pela complexidade sem efetividade ou retorno ao negócio. 

Sobre os autores:

  • Gabriel Prestes, formado em Gestão da Tecnologia da Informação, DevOps Engineer da ilegra, entusiasta de carros antigos e apaixonado por VW Santana, vulgo “lasanheiro”.
  • Tales Viegas, formado em  Ciência da Computação, Arquiteto de Software na ilegra, tem mais anos trabalhando com informática do que muitos dos seus colegas tem de vida, viciado em Marvel, viagens e sofrimentos futebolísticos.

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